Estava deitado em um leito de hospital retorcendo-me de dor de um lado para outro da cama e aguentando caladamente uma tremenda dor de estômago. Dor essa que padecia há alguns anos, quando inesperadamente entra pela porta aquela que se dizia ser minha esposa que juntos compartilhamos longos e porque não dizer, lindas noites de amor. Quantos beijos, quantas carícias, quantas palavras e frases, eu te amo, eu te quero, você é o grande amor da minha vida. O nosso amor será eterno, nascemos um para o outro. Vou te amar até os últimos da minha vida. Bons tempos, boas lembranças, bons fluídos que marcaram as nossas vidas. Muitas juras de amor. Serei fiel a você. Era um filme, era uma imaginação ou quem sabe uma realidade que, mesmo agora nesse momento de incerteza se eu iria morar no andar de cima ou ainda permaneceria no térreo vivenciava naquele instante. Não conseguia esquecer os prazerosos momentos que passamos juntos. Enquanto tudo isso passava por minha mente, a minha ou aquela que se dizia ser minha esposa acabava de pronunciar uma frase que me fez sofrer mais do que a dor cancerígena que me corroía dia após dia naquele Hospital. Meio como sussurrando aos ouvidos do outro, mas consegui ouvir – esse é o homem que há vários anos, de quem lhe falei, que eu não amava mais, que não sentia mais nada por ele bem antes de ficar doente e que agora ao encontrar-se nesta situação tão deprimente estou contando os seus últimos minutos para dizer-lhe definitivamente adeus. Mal sabia ela que mesmo naquela lamentável situação consegui ouvir aquela injúria contra mim. Seguia ela dizendo: – tenha um pouco mais de paciência, eu fiquei durante vários e vários anos me cuidando para entregar-me por completa a você. É só questão de tempo. Ouvi do outro uma resposta do outro uma resposta segura e decisiva: – já que você se preparou para entregar-se por inteira a mim, terei toda paciência meu amor para lhe esperar. Sei que no momento certo iremos recuperar essa longa espera. Deixe esse pobre moribundo morrer e depois de enterrá-lo seremos felizes para sempre. Continuava a outra: – pobre infeliz, além de morrer, não poderá mais acariciar-me. Olhando para mim aquela se dizia ser minha esposa, e ele acariciando-a dizia: – esse corpo lindo que você tem meu amor, esse rosto perfeito, esses lábios carnudos e esses olhares apaixonados. Essas pernas bem torneadas, não vejo a hora de tê-las todinhas só para mim. Enquanto os dois se apertavam para passar na porta estreita do quarto do Hospital, eu padecia naquele leito de morte sem saber se era a dor cancerígena que doía mais ou a dor do desprezo que acabava de ouvir. Via as luzes que iam se apagando, uma mulher de branco correndo de um lado para outro, um senhor bem sisudo me olhava e aos poucos os meus olhos iam se fechando de tanta dor. O alarme dispara, ouve-se uma voz, um grito: – traga o balão de oxigênio, aonde está o massageador? precisamos reanimar este paciente, olha só, ele parou de respirar e o coração está parando. São os últimos suspiros!. E lá no canto do quarto continuavam os dois, aquela que se dizia ser minha mulher e o outro: – é dessa vez que ele se vai, dessa vez ele não escapa. Pergunta o outro para aquela que se dizia ser minha mulher: – para onde iremos viajar na nossa lua-de-mel? Quero tirá-la desse lugar e levá-la para um lugar bem longe, já que o tempo de espera foi muito longo para nós dois. Médicos e enfermeiras olhavam um para o outro e diziam entre si: – pobre homem, finalmente descansará em paz, não irá sofrer mais e sua família poderá retornar a viver normalmente. Continuavam os médicos e enfermeiras: não é fácil ficar ao lado de um moribundo dia e noite durante muito tempo como essa família ficou. Pensava eu comigo mesmo: - se esses médicos e essas enfermeiras soubessem o quanto padeci em vida, sem poder nos últimos anos tocar no corpo da minha ou naquela que se dizia ser minha mulher, sem ouvir uma só palavra que me amava e nem sentir o seu carinho durante centenas de noites e agora vocês dizem que a minha família vai descansar em paz depois de ter sofrido por haver cuidado de mim? Que absurdo é esse. O meu corpo foi ficando frio, já não sentia mais os movimentos dos meus dedos, perdi completamente a sensibilidade dos meus pés. Como se fosse um véu tapando os meus olhos e aos poucos escureceu por completo. - Confesso para você que naquele momento chorei, abracei o velho João, já com seus noventa e tantos anos de vida, pela coragem que ele teve de me contar a sua triste história. O seu João me olhou dentro dos meus olhos e disse: - menino, você é a primeira e a única pessoa que tive a coragem de contar a minha história. Eu, sem saber se lhe perguntava ou não sobre a sua mulher, que fim havia tido e como ele havia conseguido sobreviver, acabei me derretendo em choro. Não tive outra reação a não ser chorar. Não venham dizer os machões que homem que é homem não chora, porque isso não é verdade. Só não chora quem não tem sentimento, sensibilidade e amor. Foi difícil, mas naquele momento levantei a cabeça e vi que o seu João deu umas entortadas nas pernas, me olhou no fundo dos meus olhos novamente e disse: - posso agora ir em paz, finalmente tive a coragem de contar o que aconteceu comigo. Quanto aquela que se dizia ser minha mulher sabe que..., não deu tempo dele terminar a frase, seu corpo foi caindo e eu ao vê-lo cair o segurei e o seu João acabou morrendo nos meus braços. Meio sem saber o que fazer e nem o que dizer naquele momento, acabei dizendo:- velho João, agora sim o senhor poderá descansar em paz e ninguém jamais irá lhe perturbar. E o seu segredo vou mantê-lo para sempre. De agora em diante o seu segredo será o meu segredo, sua história será a minha história que se perpetuará para sempre na minha memória.

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